Se você está usando um software da Microsoft para ler esta matéria, saiba que o criador da empresa, Bill Gates, declarou ter uma variação do autismo, conhecida como síndrome de Asperger. Caso aprecie as inovações tecnológicas da Tesla ou da SpaceX, vale lembrar que Elon Musk também revelou ter o transtorno do espectro autista (TEA). Se é fã de cinema, talvez goste dos filmes dirigidos por Tim Burton ou estrelados por Anthony Hopkins – ambos autistas.
Gates, Musk, Burton, Hopkins e mais 70 milhões de indivíduos no mundo – aproximadamente 2 milhões no Brasil, segundo o Conselho Nacional de Saúde – têm autismo ou alguma das suas variações, e grande parte deles leva a vida de modo normal, quando não de maneira extraordinária.
Na verdade, o que mais prejudica a normalidade da vida das pessoas autistas são os sucessivos episódios de preconceito que elas ainda enfrentam diariamente. Para diminuir a discriminação, espalhar conhecimentos e estimular o diagnóstico precoce, as Nações Unidas escolheram 2 de abril para ser o Dia Mundial de Conscientização do Autismo.
Ao ler, nesta matéria especial, as histórias de pessoas que são autistas (ou têm uma relação especial com autistas), você vai perceber que elas podem estar ao seu lado no trabalho, fazer parte do seu círculo social ou, até mesmo, julgar o seu processo na Justiça.
O juiz que se descobriu autista e se encaixou no mundo
Luís Ricardo Fulgoni, juiz na cidade de Bela Vista do Paraíso, no norte do Paraná, foi diagnosticado com TEA enquanto estudava para a magistratura, em meio à pandemia da Covid-19.
De origem humilde, Luís Ricardo nasceu na periferia de Volta Redonda (RJ) e estudou em escola pública. Na infância, tinha dificuldade de se relacionar com o “mundo exterior”. Foi com a ajuda da irmã mais nova que conseguiu melhorar seu grau de interação com as pessoas e até a aprender tarefas aparentemente simples, como amarrar os cadarços, aos 16 anos.
Apesar das dificuldades, tornou-se servidor do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) aos 18 anos. No entanto, uma tragédia foi decisiva para mudar sua percepção do mundo: sua irmã foi vítima de feminicídio, e ele sentiu, naquele momento, não apenas a dor da perda, mas também o descaso da burocracia estatal.
Aquele momento difícil virou força para seguir estudando, levando-o a se tornar oficial de justiça e, depois, a entrar na magistratura.
Interesse descoberto na infância virou trabalho para servidor do tribunal
Servidor da Assessoria de Inteligência Artificial do STJ desde janeiro de 2000, Luiz Anísio Vieira Batitucci recebeu o diagnóstico de TEA em 2021. A novidade, entretanto, não representou nenhuma mudança significativa em sua rotina de trabalho. Até aquele momento, ele sabia que tinha transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), o que já exigia alguns cuidados, mas a descoberta do autismo esclareceu por que ele desenvolveu, ao longo da vida, um forte interesse por tecnologia.
“Se não estou trabalhando presencialmente ou de forma remota com nossos projetos do tribunal, estou estudando e buscando aperfeiçoamento para eles. Tecnologia foi um dos meus hiperfocos desde os 9 anos, somado à psicologia, à análise do comportamento e ao autismo, hoje”, explicou.
O hiperfoco citado pelo servidor é uma característica de pessoas autistas que representa um interesse intenso e altamente concentrado em um ou alguns assuntos, podendo durar a vida toda ou mudar com o passar do tempo.
Luiz Anísio destacou, ainda, a necessidade de iniciativas de conscientização para que a população aprenda as melhores formas de interação com autistas, sem julgamentos ou tentativas equivocadas de interpretar comportamentos não verbais diferentes daqueles aos quais todos estão habituados.
“Cada autista é único, em suas dificuldades, seus níveis de suporte e suas habilidades, como todas as pessoas são únicas. É importante entender que qualquer pessoa pode precisar de adaptação para diversas dificuldades temporárias ou permanentes, e a sociedade precisa estar preparada para ter esse olhar e dar esse suporte”, concluiu.
Conselheiro do CNJ utiliza aprendizado com o filho para promover respeito e tolerância
Na vida de Mário Goulart Maia, conselheiro do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o tema do autismo bateu à porta com o nascimento do seu filho, há quase sete anos. Após um início de questionamentos e incertezas, o conselheiro e a família superaram vários desafios, mas ainda enxergam na luta contra o preconceito – especialmente aquele velado e silencioso – uma das questões mais sensíveis e importantes para a comunidade autista.
“Surgem com todas essas questões apenas duas possibilidades: vitimizar-se ou encarar e lutar. Eu optei pela segunda e não teria como ser diferente”, afirma.
Segundo o conselheiro, o ordenamento jurídico brasileiro já prevê uma série de direitos para os autistas (enquadrados como pessoas com deficiência para efeitos legais), mas ainda há problemas na aplicação desses direitos – seja por desconhecimento, seja por dificuldades no acesso à Justiça, seja por outras barreiras.
Na opinião de Mário Maia, para contribuir com a superação desses problemas, o Judiciário precisa continuar garantindo direitos já previstos em lei e, quando for necessário, adotar o que define de “postura transgressora”, no sentido de romper com pensamentos anacrônicos sobre o assunto.
“Esse tema faz parte da minha vida e, desde o meu primeiro dia no CNJ, luto e dou voz a quem literalmente não a tem. Tenho proferido palestras para divulgar informações e ampliar a conscientização da sociedade em geral e, principalmente, dos atores do sistema de Justiça, a respeito da inclusão, da necessidade de melhor compreensão e de tolerância em aceitar pessoas e grupos diferentes de nós, pois o que nos torna indivíduos é justamente a capacidade de ser único”, enfatiza.
FONTE: STJ (https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias/2023/02042023-Brilhantes–capazes–autistas-historias-de-sucesso-e-superacao-no-Dia-de-Conscientizacao-do-Autismo.aspx)
